Igor Lourenço

O perigo de apontar mocinhos e vilões na política brasileira

2026

Os casos recentes (início de setembro de 2026) envolvendo política e judiciário no Brasil têm intensificado a polarização ideológica entre os brasileiros. De analistas políticos, juristas e jornalistas ao “cidadão comum”, todos têm opiniões sobre o que está acontecendo em Brasília; o problema é que todo mundo está certo com uma certeza tão absoluta quanto a de que o “outro lado” está errado.

As investidas de Mendonça contra Moraes e vice-versa, assim como interferências ou omissões de outros notáveis, como Dino, Alcolumbre e Mendes, têm dividido análises, que, às vezes embasadas apenas no agente, perigosamente variam.

Muito se vê em redes sociais a divisão entre os mocinhos e os vilões nessa história, onde, por exemplo, o Min. Moraes, outrora “herói da democracia”, assume a imagem de “corrupto”. Nesse momento, seus desafetos de 2023 trazem a narrativa de “sempre estive certo” e “eu já sabia”, ao passo em que os defensores do Ministro tendem a achar brechas nos fatos para isentar seu “herói” da culpa atual.

Assim se criam mocinhos e vilões no Brasil. A polarização tornou praticamente impossível uma análise prática que conclui que qualquer homem ou mulher pode agir bem ou mal em momentos diferentes. Hoje assume-se uma postura geral de que quem foi considerado mocinho um dia sempre será mocinho, e quem foi herói sempre será herói, se extendendo a terceiros por afinidade, de forma com que um “amigo” do meu herói também é herói e amigo do meu vilão também é vilão.

O perigo desse pensamento, que tem moldado a identidade política do brasileiro por pelo menos 8 anos, é o chamado raciocínio motivado (KUNDA, 1990), onde “as pessoas não percebem que o processo é enviesado por seus objetivos, que estão acessando apenas um subconjunto do conhecimento relevante, que provavelmente acessariam diferentes regras e crenças na presença de outros objetivos, e que talvez fossem capazes de justificar a conclusão oposta, em diferentes circunstâncias”. Em resumo: para embasar as próprias opiniões, as pessoas distorcem fatos e dados, de forma a intensificar a polarização e isolamento de ideias divergentes e inconvenientes.

Isso causa, por fim, uma ignorância que consiste na incapacidade de reconhecer erros do próprio grupo, de forma em que é perdida a capacidade do cidadão, independente de especialização, profundidade ou nível de instrução, de reconhecer que o “mocinho” pode errar e o “vilão” pode acertar em diferentes situações ou que o mocinho pode ser vilão e vice-versa, dependendo dos interesses em jogo.

Voltando para a situação de exemplo, O Min. Moraes pode ter acertado em 2023 e errado agora, pode ter errado nos dois momentos ou até mesmo acertado nas duas situações, dependendo muito de como e por quem suas atitudes são vistas e analisadas. Cabe a nós racionalizar as situações e separar as atitudes dos autores, porque às vezes aquela figura política que parece ser seu herói pode estar agindo contra seus interesses e é importante a capacidade de discernir o que é realmente certo ou errado para nós, independente de quem tem a caneta na mão.




Referências:

https://fbaum.unc.edu/teaching/articles/Psych-Bulletin-1990-Kunda.pdf

https://www.frontiersin.org/journals/political-science/articles/10.3389/fpos.2025.1553889/full